A Competitividade do Agronegócio Cearense

A Competitividade do Agronegócio Cearense

O agronegócio cearense carateriza-se por uma situação de dualidade que, simultaneamente, revela uma carência e manifesta uma oportunidade: o ceará detém tecnologia de ponta em diversas produções agrícolas e pecuárias mas ainda não se estenderam, suficientemente, tais conhecimentos e práticas ao grosso do tecido produtivo.
Esta dicotomia revela a interesse que o agronegócio cearense pode exercer no sentido da atração de empreendedores nacionais e estrangeiros. Aqui encontram acesso facilitado a tecnologia, vantagens geográficas e de infra-estrutura e, sublinhe-se, inúmeras oportunidades em espaços com aptidão para a produção agrícola e pecuária.
Sem prejuízo de outros esforços, o empreendimento em agronegócio no Ceará requer um estudo prévio dos mercados e a definição de padrões e custos de produção otimizados. Aconselha-se postular como alvos diversos públicos consumidores: locais, regionais, nacionais e internacionais, como forma de incrementar a rentabilidade e padrão da produção e salvaguardar a continuidade do êxito na atividade.
Em síntese, os fatores que determinam a competitividade do agronegócio cearense revelam-se, essencialmente, a três níveis: 1) localização geográfica; 2) infra-estrutura de produção e suporte à comercialização; 3) tecnologia de produção agrícola e pecuária.

GEOGRAFIA
De entre as vantagens geográficas, destacamos, primeiramente, que o Ceará se encontra próximo da linha do Equador, apresentando temperatura média estável oscilando entre os 22ºC das serras e os 27ºC do sertão, originando a possibilidade de maximizar a quantidade de safras anuais em diversas produções agrícolas e pecuárias, de onde destacamos as frutas irrigadas e a piscicultura. Ainda neste âmbito, sublinhe-se que o Ceará possui o menor “transit-time” do Brasil para a Europa, Estados Unidos e África.

INFRA-ESTRUTURA
No que respeita às vantagens em infra-estrutura de produção no agronegócio assumem especial destaque as 11 bacias hidrográficas, a capacidade de armazenamento de 17,8 bilhões de m3 de água, estimando-se que a área irrigada atual preencha 80 mil hectares, com potencial para utilização de 200 mil hectares, num total de 8 perímetros públicos irrigados.
Por outro lado, a comercialização do produto do agronegócio cearense é assistida pelos Portos do Mucuripe e do Pecém, com destaque para este último ao consolidar, em 2009, a sua posição como maior porto exportador de frutas do Brasil: 261.228 toneladas exportadas, representando 37% do total exportado em 2009, numa tendência de liderança que se manteve no primeiro quadrimestre de 2010 com 60.385 toneladas exportadas. O Aeroporto Internacional de Fortaleza, por sua vez, possui infra-estrutura moderna, câmaras refrigeradas para pescado, flores e frutas, voando diretamente para Europa e Estados Unidos.
Como uma das últimas conquistas da ADECE (Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará) merece nota de destaque a implantação de uma Zona de Processamento de Exportações (ZPE) no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, permitindo antever a possibilidade de virmos a ter, num futuro que se deseja próximo, aviões cargueiros para efetuar o escoamento do agronegócio cearense e de outras regiões do Norte e Nordeste.
De entre as limitações em infra-estrutura, cita-se a necessidade de melhoria das vias rodoviárias e ferrovias, se bem que se reconheça o esforço feito nos últimos anos na recuperação e ampliação da malha rodoviária, totalizando mais de 7.500 quilómetros, e com uma distância média inferior a 300 quilómetros das áreas de produção aos portos. Aguarda-se com elevada expectativa a efetivação da Ferrovia Transnordestina, com terminação no Porto do Pecém e permitindo interligar o Ceará às regiões de Salgueiro e Petrolina, em Pernambuco. Ao todo, serão 2,278 quilõmetros de extensão com capacidade de transportar 30 milhões de toneladas de carga por ano, sendo cerca de 595 quilómetros no Ceará.

TECNOLOGIA DE PRODUÇÃO AGRÍCOLA E PECUÁRIA
Na produção agrícola e pecuária, destaca-se a tecnologia moderna e competitiva que o Ceará dispõe nos seguintes setores:
a) fruticultura irrigada, floricultura e apicultura. Sendo este o estado brasileiro que mais exporta castanha de caju, melão, melancia e abacaxi. Banana é outra fruta onde o Ceará se destaca. As flores constituem importante cluster, com relevo para a produção de rosas. A apicultura é praticada sobretudo ao nível familiar, cabendo destaque ao programa de Melhoramento Genético de Abelhas. Perspectiva-se uma maior utilização da apicultura em complementaridade com a fruticultura, no sentido da maximização da polinização e subseqüente produção. Os principais mercados de exportação do mel cearense são os Estados Unidos e a Alemanha.   Refira-se o trabalho científico da Embrapa Agroindústria Tropical, também expresso nos experimentos com cajueiro no seu Campo Experimental de Pacajús.
b) pecuária, expressa em caprinos, ovinos e bovinos. Em Sobral, encontramos a Embrapa Caprinos e Ovinos, centro de referência tecnológica, sendo igualmente possível encontrar explorações empresariais que praticam tecnologias modernas como sejam a inseminação artificial e a transferência de embriões. Ao nível da bovinocultura, perspectivam-se significativos avanços por recurso à utilização dos perímetros públicos irrigados, tendo em atenção que, atualmente, apenas 75% do consumo regional de leite é atendido pela produção estadual.
c) piscicultura e carcinicultura. A criação de Tilápia assume a relevância neste sector, com produção estadual de 20.000 toneladas mas que, com o potencial hídrico cearense, poderia atingir 240.000 toneladas. O Ceará é o maior consumidor deste peixe no Brasil, com 20% do consumo nacional.  Após amargar alguns anos de dificuldades, a criação de camarão volta a experimentar bons resultados agora com mais ênfase no mercado interno, contando-se cerca de 180 fazendas no Estado distribuídas em 5.546 hectares e perspectivando-se que, até ao fim de 2010, o Ceará se afirme como o estado brasileiro maior produtor de camarão.
No setor agropecuário, bem como noutras áreas de negócio, reforça-se a necessidade de empreender com inovação e qualidade, agregando valor à produção, preservando o meio ambiente e contribuindo para o desenvolvimento sócio-económico sustentável da sociedade em que nos inserimos.

por Carlos Duarte
Sociólogo, Diretor da Terra Quente Agropecuária.
Diretor de Agronegócios da Câmara Brasil Portugal no Ceará,
Vice-Presidente da Câmara Brasil Angola no Ceará.